DIÁLOGO 22

CLIMA E CONSUMIDORES

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QUAL O PAPEL DA SOCIEDADE CIVIL NUM BRASIL QUE PASSA FOME?

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22º Diálogos Futuros Sustentáveis, realizado pelo iCS com apoio da Embaixada da Alemanha, reuniu alemães e brasileiros na Cidade das Artes, com transmissão ao vivo pelo YouTube

O iCS - Instituto Clima e Sociedade, com apoio da Embaixada da Alemanha, realizou ontem, dia 19 de outubro, a 22ª edição do seminário internacional "Diálogos Futuros Sustentáveis". O evento, que teve como tema Clima e Consumidores, aconteceu na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, em, sinergia com o Pacto de Milão, com transmissão ao vivo no canal de Youtube do iCS e tradução simultânea em português e alemão.

 

Com abertura de Dirk Augustin, cônsul-geral da República Federal da Alemanha no Rio de Janeiro; Marina Marçal, coordenadora do portfólio de política climática do iCS; e Teresa Liporace, diretora programática do iCS, o seminário recebeu como palestrantes o alemão Jochen Geilenkirchen, conselheiro para o Consumo Sustentável da Federação Alemã de Defesa dos Consumidores, que participou remotamente; Janine Giuberti Coutinho, coordenadora do Programa de Alimentação Saudável e Sustentável do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor – Idec; Gustavo Ferroni, coordenador de Justiça Rural e Desenvolvimento da Oxfam Brasil; André Micalli de Campos, coordenador de pesquisas sobre cadeias produtivas da Repórter Brasil; Juliana Medrado Tângari, diretora do Instituto Comida do Amanhã; e Elisabetta Recine, docente na Universidade de Brasília. A moderação foi de Kamyla Borges, do iCS.

 

Os participantes discutiram o papel do consumidor como agente de mudança em direção a sistemas alimentares mais saudáveis e sustentáveis, a importância de políticas públicas e da regulamentação da propaganda e da rotulação de alimentos e, sobretudo, as contradições do Brasil, que se destaca como grande produtor e exportador de commodities agrícolas quando tem, hoje, mais de 33 milhões de pessoas passando fome.

 

Dirk Augustin, cônsul-geral da Alemanha no Brasil, abriu o seminário ressaltando a importância de que os consumidores possam exigir produtos sustentáveis e a responsabilidade dos governos nesse processo. “Na área de alimentação, estamos desenvolvendo na Alemanha uma estratégia federal com ações concretas envolvendo segurança alimentar, com proteção à saúde e ao meio ambiente. Consumo sustentável significa também consumo justo”, disse. “Outro ponto a se destacar é que, enquanto a parcela mais pobre da população sofre mais com os efeitos das mudanças climáticas, ela é a que menos contribui para esses efeitos.”

 

Todos os participantes concordaram sobre o papel do consumidor como ator importante de transformação, principalmente na função de mobilizar a opinião pública, mas destacaram que essa responsabilidade não pode recair apenas sobre a sociedade civil.

 

O público presente assistiu ao vídeo enviado pela professora Elisabetta Recine, da Universidade de Brasília, que pontuou: “Estamos vivendo um colapso climático. As mudanças no padrão de consumo só são reais se têm essa conexão com o coletivo, se contribuem para o processo de consciência coletiva. Quais são os caminhos de transformação? A mensagem da transformação precisa ser cunhada através de experiências reais que já estão acontecendo. Temos muitos exemplos (ao redor do mundo) e precisamos realizar uma transição agroalimentar mais justa, mais sustentável e mais saudável”

 

Jochen Geilenkirchen, da Federação Alemã de Defesa dos Consumidores, sublinhou a importância da transparência sobre os processos produtivos das cadeias de alimentos. “Muitos produtos prometem ser sustentáveis, mas são certificados emitidos por empresas particulares. Os produtos orgânicos são muitas vezes mais caros do que os convencionais, os consumidores muitas vezes não têm como comprar. Precisamos aumentar a gama de ofertas de produtos sustentáveis. Outro ponto é que os produtos precisam ser reconhecidos a olho nu. Os consumidores acham difícil reconhecer se o produto realmente foi produzido de forma sustentável. Isso transfere a responsabilidade para o consumidor, essa decisão é muito difícil. A propaganda deve ser mais regulamentada nas cadeias globais de produção. Ainda não temos como verificar se as pessoas estão sendo exploradas, se está havendo desmatamento, por exemplo. Enquanto as empresas alegam, muitas vezes de forma incorreta, a sustentabilidade nos seus produtos, o consumidor não tem como tomar as decisões certas.”

 

Janine Giuberti Coutinho, do Idec, complementou, exemplificando os avanços no Brasil nessa questão, mas destacando que ainda há um longo caminho a percorrer. “Um caso muito emblemático foi o do aperfeiçoamento da rotulagem no Brasil, trabalho realizado por uma grande coalizão de instituições. Após longos seis anos a versão atual da norma aprovada foi aquém do que desejávamos. Mas foi um grande resultado, consideramos uma vitória, por termos conseguido avançar mesmo no governo atual, quando foram aprovados mais agrotóxicos do que nunca.”

 

André Micalli de Campos, da Repórter Brasil, começou pontuando que o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo em termos de renda. “Temos aqui uma quantidade muito significativa de pessoas/consumidores que devem ser mobilizadas para fazer parte das discussões, rastreabilidade capaz de identificar a origem dos alimentos. O que elas podem e devem demandar da indústria de alimentos. Mas essa ainda é uma discussão de nicho. A maioria da população do Brasil ainda tem que basear suas escolhas pelo preço, pelo poder aquisitivo. É excludente no contexto brasileiro a discussão do poder de escolha. E o preço do alimento é resultado de uma série de políticas públicas de apoio econômico a determinadas formas de produção de alimentos. Não é para colocarmos como o consumidor pode escolher entre A e B, mas sim engajar o consumidor formador de opinião para que ele cobre das autoridades”, disse.

 

Gustavo Ferroni, da Oxfam Brasil, concordou: “Quem sofre as consequências dessa desigualdade são as parcelas mais pobres, mais vulneráveis. No Brasil existe um padrão: o nível de transparência das multinacionais que atuam aqui é muito baixo, aqui não é replicado o padrão que usam em suas matrizes. Isso ajuda a escamotear as informações sobre as cadeias produtivas. Precisamos avançar nas rotulagens”.

 

Juliana Medrado Tângari, do Instituto Comida do Amanhã, participou destacando o papel das cidades na agenda da justiça alimentar. “Vemos cada vez mais cidades querendo agir e não sabendo como, por isso estamos vendo tantas cidades querendo voluntariamente aderir ao Pacto de Milão? Quanto mais fortes são as políticas municipais para sistemas alimentares, mais conseguimos avançar nesse setor”.

 

CONTEXTO GERAL

 

O Brasil pode ser considerado um retrato da sindemia global da obesidade, subnutrição e mudanças climáticas. De um lado, somos os maiores produtores de alimentos e commodities agrícolas do mundo. De outro, a expansão da produção, em particular das commodities agrícolas - soja, milho e carne – revela-se um dos principais vetores do desmatamento e das emissões brasileiras de gases de efeito estufa. O Brasil também convive com mais de 60% da população em situação de obesidade e com 33 milhões de famintos, fatos aparentemente contraditórios, mas que só evidenciam o baixo acesso a alimentos saudáveis.

 

Diante desse contexto, o papel do consumidor ganha ainda mais relevância, na medida em que pode atuar seja como vetor de pressão junto à cadeia de suprimento para a mudança de práticas ambientais, exigindo alimentos com menor pegada de carbono e mobilizando o maior acesso a alimentos saudáveis, seja como ator que lidera a transição para sistemas alimentares mais saudáveis e sustentáveis. Porém, a maioria da população do Brasil ainda precisa basear suas escolhas no poder aquisitivo. O que torna necessário engajar o consumidor formador de opinião para que ele cobre das autoridades. Os consumidores, assim, representam um ponto de entrada crescente para a mobilização climática.

A urgência desse debate ganha força quando pensada dentro de uma ampla discussão sobre sistemas alimentares e cidades, que já estará ocorrendo no Rio de Janeiro em outubro – o Pacto de Milão. Há uma oportunidade em alinhar a agenda do Diálogos com a do Pacto de Milão, pelo potencial de atrair um público chave – agentes públicos municipais, organizações que atuam no campo da segurança alimentar e da saúde, movimento de consumidores, da agroecologia e movimentos de base.  

 

SOBRE O DIÁLOGOS FUTURO SUSTENTÁVEL

Brasil e Alemanha cooperam, historicamente, em diversas áreas como energia, meio ambiente, clima, ciência e tecnologia, desenvolvimento econômico etc., e em projetos que envolvem diversos atores. A cooperação na área de meio ambiente e energia é considerada estratégica para os dois países. Atualmente, temos discutido a transversalidade da área ambiental, trazendo uma série de temas-chave, hoje entendidos como interligados as questões ambientais, sobretudo à área climática.

 

Nesse sentido, uma série de eventos será realizada no âmbito do projeto “Diálogos Futuros Sustentáveis”, coordenado pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS) e pela Embaixada da Alemanha no Brasil, no intuito de elevar a discussão sobre mudanças climáticas através da perspectiva dos agentes da transformação.

 

Em 2022, grupos e setores específicos trazem novas abordagens e pontos de entrada para seguir para a implementação, intercâmbio de boas experiências com organizações e experts da Alemanha. O objetivo é explorar a relação entre o clima e determinados atores da transformação, ampliando o diálogo e debatendo os desafios enfrentados e as soluções criativas e boas práticas implementadas pelos dois países, a fim de promover o crescimento econômico, a inclusão social e a conscientização sobre a necessidade de proteção ambiental.

 

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